sábado, 14 de novembro de 2015

A regueifa do Agostinho


Amigos, ando meio desaparecido, mas não acabei com isto.

O texto de hoje é do Francisco António Esteves - O Chico - 1º Cabo 2524



"No dia 12 de Maio de 1963, saímos dois pelotões para a Serra do Pingano, no Vale do Vamba.

Choveu muito, torrencialmente...

O nosso único tecto foi a copa das árvores e foi debaixo delas que passamos a noite..

Ficamos encharcados, TODOS molhados. Não havia impermeável que nos salvasse. Entrava água por todos os lado. e a água era tante, que um colega nosso de "quarto", o Agostinho, teve o seguinte desabafo:

- AI QUE TENHO A MINHA REGUEIFA TODA CHEIA D'ÁGUA!

No caminho de regresso, onde antes estava tudo enxuto, estava agora cheio de água.

Quando chegamos ao aquartelamento, no dia 13 de Maio de 1963, a nossa roupa já tinha enxugado no nosso corpo.

Vida triste a de tropa..."




Bom fim de semana e um abraço do vosso amigo Aires - 1º Cabo 2625




sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Trova do vento que passa



Hoje deixo-vos com um poema de Manuel Alegre.

Bom fim de semana do vosso amigo Aires - 1º Cabo 2625

Um abraço!




"Pergunto ao vento que passa 
notícias do meu país 
e o vento cala a desgraça 
o vento nada me diz."

Manuel Alegre


A tentar "descontrair"

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Os tiros do Cabo Clarim!


O texto que se segue é do Francisco António Esteves - Chico
1º Cabo 2124

Abraço do vosso amigo Aires - 1º Cabo 2625



Um dia qualquer depois do almoço, a caserna de cima - no Zalala - estava cheia de gente.

O cabo Clarim estava a limpar uma arma, e não usou a devida segurança da arma.

Inadvertidamente dispara a arma, atingindo um colega do lado, no dedo grande do pé. O colega estava tirar uma cesta e acordou, claro, estremunhado. Sentou-se na beira da cama, viu o sangue que lhe jorrava do pé e disse:

- Ai o meu rico pezinho!

Correu em direção ao posto médico para fazer o respetivo curativo.

Sorte foi mais ninguém ter sido atingido.

Eu, no Zalala, na pose para a foto!

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Poema de Manuel Alegre


Hoje deixo-vos com um poema de Manuel Alegre.

Um abraço para todos do vosso amigo Aires - 1º Cabo 2625




As nossas frases estão cheias de picadas
 de minas a explodir nos substantivos 
por dentro do silêncio há emboscadas
 não sabemos sequer se estamos vivos. 
Os helicópteros passam nas imagens
 a meio de uma vírgula morre alguém
 e os jipes destruídos estão nas margens do papel
 onde talvez para ninguém 
se vão escrevendo estas mensagens. 

 Manuel Alegre

domingo, 6 de setembro de 2015

O roubo do saco de lona


O texto de hoje é meu.

Espero que tenham tido um excelente fim de semana.

Boa semana para todos!

Abraço para todos do vosso amigo Aires - 1º Cabo 2625


Quando a CART.422, "Os Maçaricos", chegou ao Zalala era já madrugada.

A viagem do Quitexe até ali tinha demorado tempos infinitos. As picadas eram más e o tempo não ajudou em nada. Tinha chovido imenso e tudo o que queríamos era chegar ao destino sãos e salvos.

Na azáfama dos que chegam e dos que vão embora, na hora de arrumarmos as nossas malas e sacos, dei por falta do meu saco de lona, que continha a minha roupa camuflada. Fiquei aflito. O camuflado, como devem imaginar, era indispensável!

Procura aqui, procura ali e nada!...

Fui logo ter com o Quim Carreira, que era um desenrascado mais ou menos e dei-lhe conta do que me tinha acontecido.

Resposta imediata do Carreira:

- Fica calado. Não digas nada a mais NINGUÉM!

Horas mais tarde, já a companhia que fomos render tinha abandonado o Zalala, vejo o Carreira. Lá vinha ele não com 1, mas com 2 sacos de lona.

- Guarda aí isso que depois falamos. Boca calada, ok? - disse-me ele.

Passados uns dois dias, estávamos já nós mais que instalados, o Carreira veio ter comigo. Disse pra ir buscar os sacos para vermos os dois o que continham.

Abrimos os sacos e lá estavam os camuflados...

Cheguei a pensar que eram dos nossos colegas militares, mas para minha surpresa e ainda bem, não eram de ninguém da nossa companhia.

Eram camuflados usados, MUITO USADOS, por sinal. O que significava que teriam pertencido aos militares que fomos render.

Fiquei aliviado...

E é assim mesmo que o velhinho ditado diz:

"A Tropa manda desenrascar!"

No meu caso digo:

O meu amigo Carreira desenrascou-me!



terça-feira, 1 de setembro de 2015

O Plastic


Boa tarde a todos.

O texto de hoje é meu.

Em memória de José Albuquerque, o Faísca!

Abraço do vosso amigo Aires - 1º Cabo 2625



Nas viagens que a CART.422 fazia ao Quitexe, tanto para se reabastecer de géneros como para receber a correspondência, aproveitávamos para vermos vários amigos militares de outras companhias que lá se deslocavam com o mesmo propósito e eu, particularmente, para rever o Lourenço do Ricardo e o Afonso Malta, ambos pertencentes à CART.421, bem como muitos outros das freguesias vizinhas da minha aldeia.

Numa dessas viagens, o Lourenço disse-me que tinha uma novidade! Tinha lá encontrado o José Albuquerque, ciclista vencedor da Volta a Portugal em Bicicleta, que era mais conhecido por Faísca.

- Onde está ele?!?! - Perguntei com curiosidade.

O Lourenço levou-me a conhecer a celebridade no restaurante do "Gomes", que era onde comíamos e bebíamos até ficar "bem saciados".

Entramos e lá estava ele! Homem alto, corpo franzino, mas rijo como um cepo!

Metemos conversa...

Perguntei-lhe o que fazia em Angola e quais os motivos que o levaram a imigrar. A resposta não foi muito diferente das dos tempos de hoje. Que em Portugal a vida estava muito má e que não havia emprego e que com o ciclismo, em termos monetários, pouco ou nada tinha ganho.

Disse-me também que era tractorista na Junta Autónoma de Estradas Angolanas.

Perguntei-lhe então se não tinha medo de andar a abrir estradas em Zonas de Guerra.

- Tenho receio, sim. Não dos tiros porque ando sempre escoltado por militares, mas sim do Plastic!

- Plastic?!?! Mas que raio é isso?!?! - Perguntei.

- São as minas anti-carro - disse ele - já vi vários camiões andarem pelos ares! Maltido Plastic! - rematou o Faísca.

Depois desse dia, todas as vezes que ía ao Quitexe procurava o amigo Faísca! Bebíamos umas cervejas e conversávamos muito! Sentia da parte dele que me considerava um amigo também!

Quando a CART.422 deixou a zona de Zalala, despedi-me dele com uma lágrima no canto do olho.

Sempre que penso nele lembro-me daquela frase: Maldito Plastic!

Nunca mais o vi... 

Sei que faleceu na década de 80 em Mangualde, sua terra Natal, vítima de atropelamento.


Espero que estejas em PAZ amigo Faísca!