sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Natal na Zalala em 1963

Natal na Zalala em 1963, do pessoal do 3º pelotão, do Alferes Ângelo

 
O QUE É SER DA 422
 
E tudo teve inicio na chamada "Pesada 2" em Vila Nova de Gaia, onde se juntaram uns 160 Homens, oriundos do Minho ao Algarve, mas com uma percentagem muito maior do Norte de Portugal. Estávamos no fim do ano de 1962.
Quase todos estavam na casa dos 20/21 anos, excepto alguns oficiais, e sargentos, que eram mais velhos.
 
Gente jovem portanto, que ainda não estava bem formada para enfrentar os perigos da guerra.
 
Em Abril, quando partimos para Angola, pode dizer-se que estavam bem melhor preparados, física e psicologicamente, pois a instrução a que foram submetidos foi de grande dureza, dado que os alferes e o capitão, tinham passado pelo melhor que havia na altura, em termos de instrução de guerrilha.
 
Começou aqui, em Vila Nova de Gaia, o que podemos chamar o primeiro contacto com um cenário de guerra.
 
Com certeza que à medida que chegava a hora da partida para Angola, os receios e os medos do que se iria encontrar, aumentavam.
 
Não há dúvida que aqui, tirando um caso ou outro, a Amizade entre todos ainda era reduzida.
 
Na travessia do Atlântico, no Vera Cruz, passaram-se uns dias maravilhosos, relaxantes, onde deu para ver , naquela imensidão de água, o quanto o homem é pequeno comparado com a natureza.
 
Vêm depois os locais onde se travava a guerra e tudo o que ela envolvia, com uma tensão nervosa permanente, quer nos aquartelamentos por onde passámos, quer na mata, no capim, nos morros ou nas estradas, a pensar mas minas ou emboscadas.
 
Todo este stress, se dava cabo do nosso sistema nervoso, também nos ajudou a crescer como Homens, pois tivemos que enfrentar e vencer medos, os perigos, e as fraquezas, a sede e a fome.
 
E sabíamos, todos sabíamos, que podíamos sempre contar com os nossos companheiros do lado, da frente ou detrás, para o que fosse preciso fazer, sem nada pedir em troca.
 
Quantas vezes bastava a coragem ou o sacrifício de um para que todos à volta ganhassem a confiança que parecia ter desaparecido naquele momento.
 
Resumindo
 
  • Se foste mobilizado pelo RAP 2;
  • Se foste no Vera Cruz em 10/04/63 e vieste no mesmo barco em 27/07/65;
  • Se andaste pelas picadas do Zalala - Quijoão - Mata dos Dembos - Baixa do Mugage e tantas outras;
  • Se ias ao reabastecimento a Quitexe e a Carmona e vinhas de regresso a Zalala, com uns "copos";
  • Se "visitavas" as sanzalas por onde estivemos aquartelados;
  • Se assististe a apanhar montes de peixes do rio, pelo nosso médico, com uma cana de pesca chamada "granada";
  • Se tiveste medo, mas foste capaz de vencê-lo e se das fraquezas criaste forças para sempre;
  • Se deste grupo fizeste Amigos verdadeiros para toda a vida, então podes dizer e gritar com orgulho que pertenceste à CART 422;
"DITOSA PÁTRIA QUE TAIS FILHOS TEVE" 
 

sábado, 14 de novembro de 2015

A regueifa do Agostinho


Amigos, ando meio desaparecido, mas não acabei com isto.

O texto de hoje é do Francisco António Esteves - O Chico - 1º Cabo 2524



"No dia 12 de Maio de 1963, saímos dois pelotões para a Serra do Pingano, no Vale do Vamba.

Choveu muito, torrencialmente...

O nosso único tecto foi a copa das árvores e foi debaixo delas que passamos a noite..

Ficamos encharcados, TODOS molhados. Não havia impermeável que nos salvasse. Entrava água por todos os lado. e a água era tante, que um colega nosso de "quarto", o Agostinho, teve o seguinte desabafo:

- AI QUE TENHO A MINHA REGUEIFA TODA CHEIA D'ÁGUA!

No caminho de regresso, onde antes estava tudo enxuto, estava agora cheio de água.

Quando chegamos ao aquartelamento, no dia 13 de Maio de 1963, a nossa roupa já tinha enxugado no nosso corpo.

Vida triste a de tropa..."




Bom fim de semana e um abraço do vosso amigo Aires - 1º Cabo 2625




sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Trova do vento que passa



Hoje deixo-vos com um poema de Manuel Alegre.

Bom fim de semana do vosso amigo Aires - 1º Cabo 2625

Um abraço!




"Pergunto ao vento que passa 
notícias do meu país 
e o vento cala a desgraça 
o vento nada me diz."

Manuel Alegre


A tentar "descontrair"

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Os tiros do Cabo Clarim!


O texto que se segue é do Francisco António Esteves - Chico
1º Cabo 2124

Abraço do vosso amigo Aires - 1º Cabo 2625



Um dia qualquer depois do almoço, a caserna de cima - no Zalala - estava cheia de gente.

O cabo Clarim estava a limpar uma arma, e não usou a devida segurança da arma.

Inadvertidamente dispara a arma, atingindo um colega do lado, no dedo grande do pé. O colega estava tirar uma cesta e acordou, claro, estremunhado. Sentou-se na beira da cama, viu o sangue que lhe jorrava do pé e disse:

- Ai o meu rico pezinho!

Correu em direção ao posto médico para fazer o respetivo curativo.

Sorte foi mais ninguém ter sido atingido.

Eu, no Zalala, na pose para a foto!

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Poema de Manuel Alegre


Hoje deixo-vos com um poema de Manuel Alegre.

Um abraço para todos do vosso amigo Aires - 1º Cabo 2625




As nossas frases estão cheias de picadas
 de minas a explodir nos substantivos 
por dentro do silêncio há emboscadas
 não sabemos sequer se estamos vivos. 
Os helicópteros passam nas imagens
 a meio de uma vírgula morre alguém
 e os jipes destruídos estão nas margens do papel
 onde talvez para ninguém 
se vão escrevendo estas mensagens. 

 Manuel Alegre

domingo, 6 de setembro de 2015

O roubo do saco de lona


O texto de hoje é meu.

Espero que tenham tido um excelente fim de semana.

Boa semana para todos!

Abraço para todos do vosso amigo Aires - 1º Cabo 2625


Quando a CART.422, "Os Maçaricos", chegou ao Zalala era já madrugada.

A viagem do Quitexe até ali tinha demorado tempos infinitos. As picadas eram más e o tempo não ajudou em nada. Tinha chovido imenso e tudo o que queríamos era chegar ao destino sãos e salvos.

Na azáfama dos que chegam e dos que vão embora, na hora de arrumarmos as nossas malas e sacos, dei por falta do meu saco de lona, que continha a minha roupa camuflada. Fiquei aflito. O camuflado, como devem imaginar, era indispensável!

Procura aqui, procura ali e nada!...

Fui logo ter com o Quim Carreira, que era um desenrascado mais ou menos e dei-lhe conta do que me tinha acontecido.

Resposta imediata do Carreira:

- Fica calado. Não digas nada a mais NINGUÉM!

Horas mais tarde, já a companhia que fomos render tinha abandonado o Zalala, vejo o Carreira. Lá vinha ele não com 1, mas com 2 sacos de lona.

- Guarda aí isso que depois falamos. Boca calada, ok? - disse-me ele.

Passados uns dois dias, estávamos já nós mais que instalados, o Carreira veio ter comigo. Disse pra ir buscar os sacos para vermos os dois o que continham.

Abrimos os sacos e lá estavam os camuflados...

Cheguei a pensar que eram dos nossos colegas militares, mas para minha surpresa e ainda bem, não eram de ninguém da nossa companhia.

Eram camuflados usados, MUITO USADOS, por sinal. O que significava que teriam pertencido aos militares que fomos render.

Fiquei aliviado...

E é assim mesmo que o velhinho ditado diz:

"A Tropa manda desenrascar!"

No meu caso digo:

O meu amigo Carreira desenrascou-me!