quinta-feira, 16 de julho de 2015

O Sr. Pascoal e família


O texto que se segue é do Meu Capitão João Vila-Chã
O texto foi escrito há 15 anos!

O meu bem haja a todos!

"Há trinta e cinco anos atrás, Região dos Dembos, Mussungo, ali próximo da Cerca.

Manhã de Novembro de 1964, ao Domingo.

Como habitual, aparecem as lavadeiras, garotada nativa, adolescentes e crescidos que procuram o Senhor Doutor (o nosso querido Dr. Joaquim Rodrigues Alves) a quem pagam a consulta oferecendo um ovo. 

Os doentes são tantos que o comandante da CART. 422 determina que passem a pagar dois ovos. 

Nem assim se conseguiu reduzir a frequência das consultas.

E passaram a trazer as galinhas!

Entre os consulentes destaca-se o Sécula (velho) Pascoal, normalmente acompanhado por aquela belezinha africana, que ficou conhecida por "Minina Ângila", com história bonita de contar.

Todos apreciamos os seus dotes estéticos, mas, "pensamos nós de que", só algum terá sido prendado com os seus amores.

Já esquecia a vinda da figura mais importante para esta pequena história, verdadeira, a mãe do Sr. Pascoal,, Bisavó da "Minina".

Trata-se de acontecimento simples, mas que abona de virtudes do soldado português que fomos. Porque quanto a defeitos, é história para outros contos.

Conversava o Capitão da CART. 422 com o Sr. Pascoal, homem de setenta e cinco anos, bom interlocutor, com considerável preparação, que lhe permitia falar fluentemente sobre a história de Portugal e dos costumes africanos, servindo, ao mesmo tempo, de intérprete de sua mãe.

A certa altura da conversa, quis o Capitão saber porquê, entre os nomes das localidades, aparecia a designação do cruzamento de picadas da Trombeta.

Era ali onde, no meio da floresta, quem seguisse de Mussungo para Golungo Alto, poderia desviar à direita, para a Serração da fazenda da Beira Alta, na direcção de Maria Teresa e Luanda.

Foi então que o Sécula Pascoal contou que, nesse cruzamento, ecoou a trombeta lusitana quando, perante a população nativa da região, foram solenemente executados por fuzilamento, um alferes e um cabo brancos. 

O famoso e implacável Capitão João de Almeida, comandante das forças de ocupação dos Dembos, que ali próximo se havia implantado no princípio do século, num forte conhecido pelo seu nome. 

Havia sentenciado com condenação à morte os dois militares, por terem cometidos crimes de violação de raparigas nativas.

Era assim no princípio do século XX.

Quando o comandante da CART. 422 se dirigiu à Mãe do Sr. Pacoal, perguntando-lhe se ouvira falar do Capitão João de Almeida, e se conhecia a história que o filho contara, a velhinha negra (olhos encovados, cabelos brancos de neve, pele curtida pela idade), ajoelhando-se, levantou as mãos em atitude de louvor a Deus e soltou uma lágrima...

Penso que de gratidão, também, para com os militares da CART. 422.

Valeu a pena!

Com a lágrima de saudade da velhinha, um abraço do vosso capitão do fim do Século XX,

João Vila-Chã"

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