sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Angelina


O texto que se segue é do meu Alferes Ângelo.
Passou-se no Mossungo em Junho de 1964, altura em que que se faziam muitas acções de Apoio às Populações Civis.

Bem hajam a todos que me visitam!

Um abraço do vosso amigo Aires - 1º Cabo 2625

"Depois de passar no Zalala uns 11 meses, a nossa Companhia foi destacada para a zona do Golungo Alto, mais propriamente para a fazenda Mossungo.

Nesta zona não havia acções de fogo por parte do inimigo. A nossa missão era fundamentalmente de contacto com as populações, de modo a que estas se sentissem apoiadas e ao mesmo tempo evitar que se desenvolvessem no terreno possibilidades de instalação de bases inimigas ou de eventuais acções armadas.

A chamada "Psico" é que era a nossa batalha diária...

O nosso quartel também servia de apoio sanitário às gentes das sanzalas mais próximas. Numa destas sanzalas, habitava uma família de apelido Pascoal, cujo membro mais idoso era o chefe. Eu, por via das minhas funções, visitava-o com alguma frequência e pode-se dizer que as nossas relações eram muito boas. Por vezes mandava-me alguma fruta por uma das netas que ia ao tratamento ao nosso posto de socorros e eu retribuía como podia, inclusivamente com fazenda para calças, que o meu pai me mandava do "puto", a meu pedido.

Uma vez por outra essa rapariga vinha acompanhada por uma prima, de nome Angelina que, pode dizer-se, era uma bela moçoila em qualquer parte do mundo! Era alta, não muito escura, cara bonita, dentes muito brancos, pernas bem torneadas e os seus 18 anos de mulher feita.

Enquanto não falei com ela não descansei. Claro que ela também soube que eu me chamava Ângelo e, por sermos quase homónimos, ou porque algum sentimento nela despontou em relação à minha maneira de ser, estabeleceu-se entre nós como que "um namoro escondido". O único a saber desta aventura era o Sargento Rui, com o qual às vezes ia vê-la ao rio lavar a roupa ou a tomar banho com outras mulheres da sanzala. E, claro, até lhe pedir para "irmos mais além" no nosso namoro, não demorou muito. Mas ela recusava sempre.

A dada altura, já perto de irmos para Cambambe e ela sabia-o, recebi um bilhete por ela escrito (ela lia e escrevia bem o português), que dizia mais ou menos isto:

"Ângelo, agora quero fazer amor contigo, mas apenas uma vez. Vem ter comigo à mata do café."

E eu fui...

Guardei esse bilhete enquanto estive em Angola e durante mais uns 3 anos em Portugal. De vez em quando lia-o e recordava a doce Angelina, da qual nunca mais soube nada.

Nas vésperas de me casar rasguei-o...

A minha mulher soube desta história."




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