domingo, 2 de agosto de 2015

Viagem de Luanda para Quitexe - Emboscada na Pedra Verde



O texto de hoje é do meu Alferes Ângelo

Bom domingo a todos!


"Estando já mobilizado para ir para Angola, entendi que levar um cão comigo me ajudaria a passar melhor o tempo e até seria um bom auxiliar na guerra que estava à minha espera. E se bem o pensei, melhor o fiz. Pedi ao meu pai para me comprar um Serra da Estrela ainda novo, para ambos termos tempo de nos habituar um ao outro. Custou 500$00 nessa altura e como era muito dinheiro, o meu pai pagou-me metade. Pus-lhe o nome de "Leão".

Quando o levei e Mangualde comigo para a Pesada 2, quartel em Vila Nova de Gaia por onde fui mobilizado, fomos os dois de comboio. Como não havia comboio direto para Gaia, tive de mudar na Pampilhosa e esperar cerca de meia hora para que o dito chegasse. Estava na gare, com uma mala numa das mãos e com a trela do cão na outra.

A certa altura, percebendo alguma impaciência no Leão e trazendo broa de milho na mala, que o meu pai disse que ele gostava, pensei que, lha dando, ele acalmaria. Pousei a mala no chão, abri-a e ao mesmo tempo soltei a trela, pois ele estava ao pé de mim. Mas, mal ele sentiu que não estava preso, começou a afastar-se de mim. Comecei a chamá-lo, mas quanto mais eu chamava, mais ele se afastava. E, já com a broa na mão, fiquei indeciso se havia de fechar a mala e ir atrás dele deixando a mala abandonada, ou se devia deixar ir o Leão à sua sorte já ali...

Resolvi deixar a mala aberta na gare da estação e começar a correr atrás dele, pois entendi naquela altura que o Leão era mais importante que o conteúdo da mala.

Só consegui agarrá-lo passados uns 10 minutos e isto depois de andar atrás dele por campos cultivados. Como não conseguiu saltar um riacho, ali parou e deixou-se agarrar. Viemos a correr para a gare e a mala continuava aberta no sítio onde a deixei e nada lá faltava. Ainda conseguimos apanhar o comboio para o Porto.

(...)


No quartel da Pesada 2, quem tinha a responsabilidade de também tratar do Leão, era um soldado do meu pelotão que tinha por alcunha o "Soviético".

Aos fins de semana, o Leão ficava por lá no canil. E num deles, já muito perto de embarcarmos para Angola, o Leão lá voltou a fugir e fiquei desesperado quando na segunda feira de manhã me apercebi disso. Como o meu pelotão tinha um crosse pelas redondezas, pensei que poríamos ir atá aos pinhais mais próximos e fazer uma "batida" pelos mesmos a ver se o encontrávamos.

Assim foi. E para encorajar o pessoal, prometi que se o encontrássemos iríamos beber uns copos na primeira tasca que aparecesse. Fomos colhendo umas informações pelo caminho, perguntando se tinha visto um Serra da Estrela sozinho. Bem, éramos cerca de 30 homens à procura de um cão! E qual não foi o nosso espanto, quando o descobrimos cheio de fome e até amedrontado num pinhal.

Está-se bem a ver que no regresso ao quartel já o pessoal ia alegre, não só por se ter encontrado o Leão, mas também pelo vinho verde que se bebeu, de modo a não se faltar ao prometido!

Entretanto, nos vários exercícios militares que se fizeram na Serra do Pilar, iam-se dando uns tiros com balas simuladas (de madeira) ao ouvido do Leão, para ele se ir habituando àquele som.

(...)

Chegados a Angola e depois de uns dias passados no Grafanil, lá fomos nós até ao Quitexe em camionetas de carga civis. Ia todos o batalhão. Eu, o cão amarrado pela coleira a um taipal da camioneta e mais uns 15 ou 16 militares do meu pelotão, íamos numa delas, armados de G3 que nos tinham distribuído e umas granadas de mão.

Pedra Verde




Na zona da Pedra Verde, na estrada asfaltada que percorríamos, rebenta forte tiroteio, tendo sido aquele o nosso "baptismo de fogo"!





À minha volta ocorreram coisas incríveis, difíceis de explicar, mas que sinteticamente e as que me lembro foram:

  • Armas encravadas eram muitas e poucas respondiam ao tiroteio dos adversários;
  • Um militar dizia que estava ferido num cotovelo e quando se foi ver, estava era todo esfolado por ter caído ao saltar da camioneta;
  • Da arma do Márinho, enfermeiro, que estava ao meu lado, não saíram balas, mas da sua boca saíram todas as asneiras possíveis e imaginárias!;
  • Uma granada lançada pelo Sargento Morais bateu numa árvore à beira da estrada e caiu à frente dele e de outros, rebentando de seguida. A sorte de todos é que era inofensiva e só fez "fumaça";
  • Era com grande espanto que a maioria olhava para os soldados que nos faziam escolta, portanto não "maçaricos" como nós, andarem de "peito feito" em cima dos jeeps, apenas com uma metralhadora neles montada, a responder aos tiros da emboscada, no meio da estrada, andando para a frente e para trás, a mostrar o seu veteranismo e heroísmo para "maçarico" ver;
  • E à terceira foi de vez... O meu querido Leão, com tanto barulho (foi quase 1 hora de tiroteio) e com tanto medo, conseguiu fugir mais uma vez e desta para nunca mais voltar... Nunca mais ninguém o viu! Daquela vez não me atrevi nem me aventurei a ir procurá-lo..."


Bem haja a todos!

Bom Domingo



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