sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Caça ao Leão



O Texto que se segue é do meu Alferes Ângelo. Passou-se em Março de 1965 e, antes que digam alguma coisa, foi numa altura em que os leões ainda não estavam em vias de extinção e eram, de facto, perigosos para as populações nativas de Angola e para nós, tropas militares.

Bem haja a todos!

Um abraço do vosso amigo Aires - 1º Cabo 2625


Lucala - Vista aérea
"Quando a nossa companhia veio do Mossungo para Cambambe, um dos pelotões foi destacado para o Lucala, mais propriamente o do Alferes Correia e quando este estava de férias, quem o substituía era eu.

Numa dessas minhas estadias no Lucala, estando eu um belo dia de fim de tarde a beber uma cerveja, veio um cipaio chamar-me, se podia ir falar com o chefe. Lá fui eu e junto ao posto estavam alguns nativos que não conhecia, mas nos quais se notava alguma excitação. Então o Administrador perguntou-me se eu queria ir à caça de um leão que estava preso numa armadilha, aí a uns 10 Km de distância, perto da sanzala das pessoas que estavam com ele. Disse-lhe logo que sim, pois caçar um leão é uma oportunidade única na vida de qualquer um.

Então, como a noite já estava próxima, combinou-se que o melhor era deixar isso para a manhã do dia seguinte, por ser mais seguro. Contou-lhe então uma história passada com ele e com um leão ferido, já ao entardecer, que por não o ter morto teve de subir a uma árvore e ficar nela toda a noite, pois só de manhã é que vieram à procura dele (não sei se foi verdade ou não, mas pelo preço que a comprei assim a estou a vender).

Bem, ao outro dia lá vou à procura do leão, com uma Mauser e cinco cartuchos com balas cortadas na ponta, pois disseram-me que assim o impacto no corpo do animal seria maior.

Pelo sim e pelo não, levei comigo mais um Jeep com 4 militares com as FN prontas para o que desse e viesse. Um deles era o Sargento Reis. 

Seriam umas 8 horas da manhã, já eu estava na Sanzala das pessoas que tinham montado a armadilha e que conheciam o local exacto onde ela estava, com a respectiva presa.

Da Sanzala a esse local ainda era uma boa meia hora a pé, entre capim e pequenas matas. Seriamos ao todo uns 12 homens, entre militares e nativos. Estávamos a deixar o capim e a entrar numa zona arborizada, onde mais abaixo corria um pequeno riacho, quando um dos homens da Sanzala me explica que a armadilha estava aí a uns 50 metros de onde nos encontrávamos, numa zona de arbustos mais baixos.

Preparei então a Mauser para estar pronta a disparar logo que fosse preciso e fui-me deslocando, agora mais devagar, para perto da armadilha. A certa altura vejo uns arbustos a mexerem e quando me quero certificar se seria o local exacto onde poderia estar o leão e olho para trás para perguntar aos nativos se era ali mesmo, já todos tinham desaparecido! Ficaram só os 4 militares que tinham ido comigo do quartel. Só me restava continuar para a frente e ver se conseguia descobrir ao certo onde estava o leão. Andei apenas mais uns 5 metros e vi a cabeça do leão, que já nos tinha pressentido e também devia estar a ver quem seriam os intrusos.

Não lhe dei tempo para reagir. Apontei-lhe a Mauser à cabeça e dou-lhe um tiro. Julguei que o tinha morto, pois acertei-lhe mesmo, mas só vejo um grande movimento nos arbustos e ouço alguns rugidos que deixam qualquer mortal acagaçado de medo! Rapidamente me apercebi que não o tinha morto e que teria de me retirar do sítio de onde estava. Desviei-me para a esquerda, subi um pouco para ficar numa posição mais elevada em relação ao animal e quando olho para baixo vejo-o claramente, assim como ele me vê a mim. Dá um rugido descomunal e eu, apanhando-o de boca aberta, dou-lhe um tiro! Tem morte instantânea.

Um dos militares aproxima-se dele e vê que já não se mexe. 

Só nessa altura é que aparecem os nativos, fazendo um grande alarido de alegria por verem o leão morto. Foram eles que depois o carregaram até à Sanzala. Ali a festa foi ainda maior, pois o leão já teria morto uns cabritos e afugentou-lhes a caça que lhes servia de alimento.

Coloquei o leão deitado e amarrado no capot do jeep, onde o cipaio do Administrador lhe retirou a pele. Antes disso, fiz-me fotografar com ele para que não me chamassem aldrabão quando eu contasse que tinha morto um leão em Angola!

A pele que mandei curtir em Luanda e que trouxe para minha casa, acabou por se estragar por estar fechado e dobrada durante muitos anos.

Salvaram-se algumas unhas que ainda guardo religiosamente.

Mas NUNCA mais vou à caça de leões..."




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