terça-feira, 25 de agosto de 2015

Os apresentados de Aldeia Viçosa - 2ª Parte - A Francisca



Texto de hoje pelo Tenente-Coronel Freitas Lopes

(Continuação)

Bem haja a todos!


Um abraço do vosso amigo Aires - 1º Cabo 2625


Este afluxo de gente carecida de tudo obrigou o Capitão de Aldeia Viçosa e todo o seu pessoal a um imenso esforço. Havia que interrogar, distribuir roupa, comida; havia que tratar muitos doentes debilitados, e havia que arranjar abrigo, porque se estava no cacimbo e as noites eram muito frescas.

De entre os primeiros apresentados, destacou-se uma nativa, a quem chamarei Francisca, e que logo arranjou trabalho como lavadeira. Não era propriamente uma Vénus, uma "Miss Universo" mas, em compensação, era de uma alegria esfuziante e deveras simpática e foram estas suas facetas que mais cativaram toda a gente.

Ora a Francisca tinha deixado na mata o seu homem, que por lá ficara porque, sendo guerrilheiro, tinha mais medo de se apresentar. Estava, pois, a Francisca Vaga, na situação de "com escritos", situação que o banto não aceita de boa mente. Mulher em bom estado de conservação e solteira ou sozinha tem que arranjar companheiro, pois que esta é a grande lei da natureza. E a Francisca, requestada por um homem dos já apresentados, juntou os trapinhos com ele.
Cubata
Fizeram uma cubata própria, que tinha varanda e tudo, e com o dinheiro da sua actividade de lavadeira, comprou ela um colchão novinho em folha no comércio que, entretanto, regressara à população.

E assim passaram semanas, dois meses, durante os quais foram chegando mais refugiados, agora trazendo mais homens entre eles, um dos quais era o próprio chefe tradicional de uma das sanzalas, o Dembo.

Um dia, numa das minhas então frequentes deslocações à localidade, não porque fosse preciso eu fazer fosse o que fosse, mas porque, dadas as minhas funções no Comando do Batalhão, me competia ir acompanhando a evolução da situação que ali se vivia, vejo a Francisca, toda animada e ainda mais risonha do que o costume, com umas embambas à cabeça, ou seja, uma trouxa, um carrego, em que sobressaia o tal colchão novo. Admirado, alguém lhe perguntou onde é que ela ia assim, com aquilo tudo. E a Francisca, mostrando os dentes todos num sorriso feliz, respondeu no seu português mesclado de quimbundo: - "Foi o meu màrido que voltou hoje dá màtá, e por isso eu vou voltar prà èle!".

E pronto! Tão simplesmente como quem muda a toalha da mesa ou acaba de ler um volume de uma obra e pega noutro, assim a Francisca retomou a sua vida de antigamente, com o marido de antigamente! Claro que o marido "ad hoc" por ela abandonado não gostou muito de se ver assim solteiro à força, mas lançou as suas vistas em volta e tratou de arranjar nova companheira.   

E a vida continuou!

...

(continua mais logo)

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