segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Os apresentados de Aldeia Viçosa - 1ª Parte - Introdução


Texto de hoje pelo Tenente-Coronel Freitas Lopes

Bem haja a todos!

Um abraço do vosso amigo Aires - 1º Cabo 2625


De Aldeia Viçosa, povoação Angolana situada a uns 20 Km a sul do Quitexe, guardo recordações inesquecíveis, para além daquele pão maravilhoso que um soldado, que nunca na vida tinha sido padeiro, fazia num forno para o efeito construído. Eu acho que nunca na vida comi pão tão saboroso como aquele! Nem as regueifas de Valongo, nem o pão saloio de Mafra, nem o pão alentejano, nem o transmontano pão de centeio!

Aldeia Viçosa


Aldeia Viçosa era atravessada de norte para sul pela estrada Uíge-Quitexe-Luanda. Curiosamente, a mesma estrada dividia praticamente as populações locais em dois subgrupos étnico-linguísticos: para Oeste, ficavam os Mocambas e para Este os Mahungos, cada qual com o seu dialecto próprio dentro do grupo do Quimbundo. E o rio Dange, que limitava, a Este a Zona de Acção da Companhia de Caçadores de Aldeia Viçosa e já fora da área do Batalhão inflectia para Oeste, passando então a chamar-se Dande, era a fronteira das áreas de influência de dois movimentos guerrilheiros que, hostilizando-nos, por sua vez entre eles se hostilizavam com não menos furor: o MPLA e a FNLA. Quando o batalhão assumiu a responsabilidade daquela área, não havia em Aldeia Viçosa ninguém, para além da tropa e do Administrador do Posto. Na área em volta, as populações das diversas sanzalas estavam todas refugiadas na mata e as fazendas estavam vazias depois de os seus habitantes terem sido, em grande parte, chacinados naquele trágico 15 de Março de 1961.

As sanzalas afectas ao MPLA formavam uma espécie de bolsa, que se estendia para a área do batalhão vizinho, a Sul, o qual ocupava a Zona de Vista-Alegre-Cambamba, e esta bolsa estava cercada por núcleos afectos à FNLA. Os núcleos guerrilheiros do MPLA não conseguiam obter reforços, nem da República do Zaire, nem de Luanda; E como eram assediados simultaneamente pelas nossas tropas e pelos da FNLA, sofriam de mil carências, desde alimentação a medicamentos, de papel de escrever a armas. A miséria e a desmoralização haviam-se já instalado entre eles.

Entre os papéis encontrados no decorrer de uma operação nossa, na mata, contava-se uma carta que uma nativa da área do MPLA escreveu a uma pessoa de família noutra sanzala, carta que fora levada para o seu destino por qualquer portador acidental. Nessa carta, a autora, depois de referir a fome, as doenças e a falta de tudo que sofriam, dizia a acerta altura, textualmente: - "...mas o nosso maior inimigo não é branco, é o preto..."

A situação ara tão dramática que o chefe, o comandante do "quartel" máximo da área - o chamado "Quartel Espiritual Único - de nome Bomboko Ferraz Mahinga, morrera tuberculizado, e os seus chefes imediatos tiveram de usar de violência para conterem as populações respectivas, que se queriam apresentar. Destes chefes, o Manuel da Fonseca foi abatido pelas nossas tropas numa operação realizada na Fazenda Santa Isabel;
Vista Geral da Fazenda Santa Isabel
e um outro, o famigerado Simão Lucas, que era o terror das suas populações, foi ferido noutra operação e acabou por perder toda a autoridade sobre os povos. Também na área do Batalhão de Vista Alegre as coisas iam mal para o MPLA.

Conhecedores de tudo isto, os militares, quer do nosso quer do Batalhão de Vista Alegre, sempre que iam para a mata - e todos os dias iam, variando apenas os objectivos - deixavam mensagens espalhadas em locais visíveis, como caminhos, sanzalas abandonadas, etc.: mensagens que eram lidas avidamente pelos interessados, pelo que, a partir de certa altura, os militares começaram a encontrar mensagens dos visados, respondendo às nossas. Assim se estabeleceu um diálogo deveras curioso e frutífero, que culminou com o envio de emissários das populações fugidas na área de Vista Alegre,
e posteriormente, a contactos entre o Comando deste Batalhão e o nosso, designadamente com o Capitão de Companhia de Aldeia Viçosa. 

De repente deram-se as primeiras apresentações em massa, na área do Batalhão vizinho, e pouco depois na área de Aldeia Viçosa. Estas apresentações não se processaram, porém, todas de uma vez, pois havia um acentuado e natural receio por parte dos foragidos: apresentava-se um grupo, via como era recebido, depois ia um emissário desse grupo à mata levando uma mensagem e, por vezes, uma oferta de sal, e logo a seguir vinha mais gente com ele.


...

(continua amanhã)

1 comentário:

  1. Não estou a entender bem. De Maio de 63 a Julho de 64 permaneci em Aldeia Viçosa e se quando chegamos só havia o chefe de posto e o Ivo comerciante, quando partimos deixamos lá duas grandes sanzalas de nativos. C.C.404.

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